Pela manhã é quando a mochila pesada da existência de ontem é colocada novamente nos teus ombros. A diferença é que ontem você já estava cansado demais pra carregar e hoje talvez você encontre alguém pra te ajudar ou um atalho para o descanso.
Há dias em que a mochila está tão pesada que rompe deixando cair muita coisa. Você sente um alívio nos ombros e uma falta, muita falta do que se perdeu, do que quebrou, do que você não terá de volta.
Por sorte existem os conteúdos leves.. São estes que escapam da mochila. Os conteúdos leves são denominados lembranças. Elas são leves porque são feitas de papel.
Quando a mochila rompe, as lembranças são levadas pelo vento. O vento pode levá-las para qualquer lugar. Lugar por onde você ainda vai passar, lugar onde você nunca mais vai voltar. No entanto, as lembranças não param quietas neste lugar. O vento continua movimentando-as, fazendo-as dançar. E lá adiante ele pode trazê-las de volta e você terá a escolha de vê-las e deixá-las ou de guardá-las na mochila até que esta se rompa novamente.
Lembranças na mochila são só suas. Lembranças ao vento são da vida, trazem a energia de diversos lugares que passou, de pessoas que encontrou... São as lembranças livres que te modificam.
Colocar a mochila nas costas e partir pode ser também deixar-se, assim como as lembranças se deixam, ao curso do vento. Esta, assim como outras possibilidades de continuar esta estória, é uma escolha feita a cada manhã.
Nesta manhã você pode ser a lembrança de alguém, você pode estar na mochila de alguém, você pode estar ao vento, você pode estar carregando a mochila e você também pode ser alguém que está de fora redigindo esta estória.
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