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sexta-feira, 31 de maio de 2013

(In)cômodos da casa

Pintar superfícies é algo que se faz sempre, mas quase nunca nos damos conta do processo de mudança que  essa ação provoca e/ou do processo de mudanças que provocam essa ação.
Você leva um tempo vivendo dentro da sua casa de modo um tanto automático. Está tão acostumado com a disposição dos móveis, com os cômodos, com os objetos e com as cores do ambiente que você já não pára  pra observar cada coisa em si, cada coisa em seu lugar, cada lugar que você em algum momento criou.Você está adaptado.
Em algum momento, num dia que eu acredito não ser um dia qualquer, você começa a desnaturalizar o seu lar. E, percebendo que as coisas poderiam ser diferentes, que te agradaria mais um ambiente diferente daquele, você pensa nas mudanças.
E aí eu também acredito que não é por acaso que dentre tantas mudanças pequenas que uma pessoa poderia realizar, ela tenha a iniciativa de mudar as paredes...
... Por que mudar a cor das paredes seria uma grande coisa?
Porque é uma ação que dá muito trabalho! É necessário que a pessoa invista alto para que a ideia se torne ação. 
Para modificar as paredes, é necessário o investimento em dinheiro, um certo planejamento para contratar o pintor, escolher as novas cores e a ordem dos cômodos a ser pintados. Também é necessário estar disposto para tanta desordem! Todos os móveis precisam de ser cobertos e cuidados para que não sejam acidentalmente pintados. Além de que muitos deles, em vários momentos, precisam de ser modificados de lugar. É um cobre-descobre; um troca-troca, um arruma-desarruma; um limpa-suja incrível!
Por isso, também é necessário que se esteja disposto a passar muito desconforto pois o cheiro forte da tinta e a poeira que toma a casa após lixar as paredes, atingem diretamente os narizes de todos os moradores da casa. À noite, talvez você não consiga dormir no seu próprio quarto por causa desse cheiro ou do trabalho que ainda ficou pela metade.
E a cor das paredes? Nossa, como é difícil escolher novas cores! 
Eu sempre opto pelo branco nas paredes internas para, posteriormente, continuar o trabalho de mudanças. As paredes brancas, fazem com que, após tudo limpo e organizado, eu possa imprimir minha marca nelas. Escolho algo diferente para o meu quarto, quero singularidade... quero que o meu quarto esteja diferente de qualquer outro cômodo. Por isso, quando tudo termina, lá vou eu começar uma nova etapa de modificação refazendo os (in)cômodos da casa. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Cheiro de tinta

Encontrar outra pessoa que faz com que eu me sinta eu mesma é uma sensação extraordinária!
Extraordinária por não ser comum e também por ser magnífica!
Bom poder olhar nos olhos de alguém e ver um brilho diferente
Sentir que se sabe o que o outro pensa e sente
Compartilhar momentos, confiança, intimidade
Falar sem sentir-se julgada
Trocar energia,
Rir à toa
E usar como desculpa, pra quem quiser acreditar,
Que o cheiro de tinta incomoda tanto
Que não há outro jeito se não se mandar
Pra passar mais tempo ao lado dessa pessoa,
E, portanto, mais perto de mim mesma.



terça-feira, 28 de maio de 2013

Cartas roubadas

Péssima notícia... O carteiro roubou as minhas cartas!

Foi ontem à noite quando tudo aconteceu...
...Saí de casa decidida: Vou aos Correios! 
Me vesti de mim mesma e saí tremendo de frio. Andei léguas, tomei chuva. Eu estava certa de que naquela noite eu resolveria o tal impasse. Afinal, se o carteiro não arriscará descobrir o caminho, eu mesma seguirei em busca do meu amado. 
Mas de tão distraída que sou, você não vai acreditar... esqueci de colocar, na bolsa, as cartas!
Distraída? É isso! Dis TRAÍDA!
Como eu pude ser tão boba?
Toda essa história foi uma armação do carteiro! 
No fundo ele queria me enganar... Que trapaceiro! 
Ele sabia que eu não desistiria e que atrás do destinatário eu iria! Foi aí que ele inventou de me atormentar e dizer que as minhas cartas ele não entregaria.
E quando eu saí, decidida a encontrar o caminho, o carteiro na minha casa vazia entrou de fininho...
Vasculhou as gavetas, os armários e a geladeira. Pegou uma cerveja, brindou sua esperteza e roubou as minhas cartas dobradas e guardadas na caixinha de bombons. 
Ao me dar conta de que o danado planejara um golpe, voltei o mais rápido que pude. 
Chegando em casa, encontrei a porta entreaberta.. Meu coração disparou!
É agora que eu pego esse carteiro de uma figa!
Entrei na ponta dos pés e caminhei até o quarto. Não havia ninguém na casa. 
Abri a caixa de bombons e percebi que as cartas tinham mesmo sido roubadas!

Ei, espera um pouco, há algo estranho aqui dentro... É um bilhete! Nele está escrito:

 "Menina linda, não há como roubar o que já me pertence. As cartas são minhas, pois sou eu o seu destinatário. Precisei de que você fosse embora pra que eu pudesse receber as cartas...veja, não há como ser carteiro e ao mesmo tempo ser o sujeito amado. Sinto muito, mas não vejo como ser possível um amor entre dois contrários. Eu quero você, mas você faz do sujeito certo o seu carteiro errado."


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Lelé Caduca

E se eu decidisse não ser mais eu? 

Pela manhã eu colocaria uma mochila nas costas e partiria o seu coração

Faria uma viagem sem sentido e 
À noite, olharia pro mundo do infinito que existe sobre a minha cabeça
De súbito, um buraco negro se abriria e a ordem desse mundo subverteria 
Eu me daria conta de tudo que eu sou e do tanto que de você em mim eu tenho.
Seguiria o Cruzeiro do Sul conversando sozinha 
Na espera de que um dia bom nasceria.
E lá eu te encontraria: no início do final.
Eu no início, você no final.
E eu aqui de lelé ficaria caduca,
Passando os dias amarrotando palavras
Desfazendo do que faço, descartando cartas.
E sendo do jeito que eu não saberia como ser,
Dormindo eu desistiria de mim sem te esquecer.

Estou escrevendo de novo, só que o carteiro tem me atormentado

Sem saber o caminho, as cartas não chegam ao destinatário.
"-Segue o Cruzeiro do Sul!
-Não menina! Essa trilha dá no meio do passado.
- Mas por que você não pode seguir essa trilha?
-Desculpe, sou eu um carteiro do futuro. Acho que você chamou o carteiro errado."

Cara de tédio

Durante a tarde
Peço pro tempo passar rápido,
Mas o tempo dura uma eternidade.
E assim a tarde dura
E se faz dura a tarde...
...quando parece ser tarde demais.

Como seria linda a tarde se ela tivesse a sua cara de tédio!
Eu riria da monotonia de uma tarde feliz
Que passaria rápido demais.
Pediria pro tempo ter calma,
Mas o tempo de tão leve voaria
E se faria fluida a tarde...
... enquanto pareceria ser cedo demais.

Cartas descartadas

Escrevo cartas. 
Eu escrevo muitas cartas!
Penso em cada palavra, em cada frase, decoro cada linha, imagino as entrelinhas.
Faço o rascunho, passo a limpo, reescrevo...
Às vezes vou escrevendo sem pensar direito.. tento ser o mais honesta possível!
E, certa de que, enfim, esta carta chegará ao seu destinatário...
...Eu penso nos seus efeitos..
..Dou um passo pra trás...
...Penso que não consegui dizer exatamente o que eu queria.
Dobro a carta, guardo-a no bolso. 
E entre outras milhares de cartas descartadas
eu faço a culpa do carteiro.

domingo, 26 de maio de 2013

Espera + ança

Existe algo denominado espera. Espera por um resultado; espera por alguém que se atrasou, que foi e não voltou...
A nossa vida se constitui por muitos momentos de presença, de ausência e de espera que se percebe a partir da vivência da presença e da ausência de algo. Esperamos por algo que nós queremos, que nós desejamos, ou que acreditamos, por algum motivo, que vai acontecer.
A espera, portanto, faz parte da vida. É um recurso que tem como vantagem a possibilidade de utilização do tempo da expectativa para o ato de pensar, de elaborar, de duvidar e de (des)construir certezas.
A espera pode soar como "aspereza" se em um determinado momento a encararmos como impossibilidade de ação, como momento de subjugação pelo outro a quem se espera, mas nesse mesmo sentido, a espera pode soar como "esperança" se encararmos como tempo de amadurecimento e reflexão para você e para o outro.
Nesse sentido, não se espera apenas o outro, mas se espera você mesmo, com outro modo de lidar sobre suas próprias questões. Daí é que se pode perceber que na espera se apresentam ao mesmo tempo a ausência (falta de algo ou de alguém) e a presença (como preenchimento). Você adiciona o sufixo "ança" e a espera se torna presença a partir da esperança (confiança, crença de algo que virá a acontecer).

O que você espera? Em que você tem esperança/confiança? O que caracteriza a ausência e a presença nos seus momentos de espera? Você se permite esperar? Como você utiliza o momento da espera?

Vale a pena pensar nisso...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Conversar sozinha


À noite

À noite eu penso nas estrelas.
Eu gosto de olhar para as estrelas e me sentir pequena, me sentir um ser dentre tantos outros!
Gosto de imaginar a imensidão do universo e respirar profundamente.
Gosto de pensar que outras pessoas estão fazendo o mesmo que eu.
Olhar para o céu à noite faz com que eu me sinta ora inteira e distante, ora dissolvida na beleza do infinito.
A noite é especial porque traz consigo a escuridão, o esconderijo perfeito para as lágrimas e o acalento para o corpo cansado do dia.
É como se à noite, sendo permitido dormir, você pudesse esquecer do tempo cronológico, dos relógios que  durante todo o dia, carregamos nos pulsos e na memória.
Sem relógios, há espaço para a contemplação, para a difusão, para a imaginação, para a sensação e para o inesperado.
À noite eu penso que as estrelas desejam ser vistas. Eu saio, deito no chão e dirijo o meu olhar para o mundo que está acima da minha própria cabeça.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pela manhã

Pela manhã é quando a mochila pesada da existência de ontem é colocada novamente nos teus ombros. A diferença é que ontem você já estava cansado demais pra carregar e hoje talvez você encontre alguém pra te ajudar ou um atalho para o descanso.
Há dias em que a mochila está tão pesada que rompe deixando cair muita coisa. Você sente um alívio nos ombros e uma falta, muita falta do que se perdeu, do que quebrou, do que você não terá de volta.
Por sorte existem os conteúdos leves.. São estes que escapam da mochila. Os conteúdos leves são denominados lembranças. Elas são leves porque são feitas de papel.
Quando a mochila rompe, as lembranças são levadas pelo vento. O vento pode levá-las para qualquer lugar. Lugar por onde você ainda vai passar, lugar onde você nunca mais vai voltar. No entanto, as lembranças não param quietas neste lugar. O vento continua movimentando-as, fazendo-as dançar. E lá adiante ele pode trazê-las de volta e você terá a escolha de vê-las e deixá-las ou de guardá-las na mochila até que esta se rompa novamente.
Lembranças na mochila são só suas. Lembranças ao vento são da vida, trazem a energia de diversos lugares que passou, de pessoas que encontrou... São as lembranças livres que te modificam.
Colocar a mochila nas costas e partir pode ser também deixar-se, assim como as lembranças se deixam, ao curso do vento. Esta, assim como outras possibilidades de continuar esta estória, é uma escolha feita a cada manhã.
Nesta manhã você pode ser a lembrança de alguém, você pode estar na mochila de alguém, você pode estar ao vento, você pode estar carregando a mochila e você também pode ser alguém que está de fora redigindo esta estória.

No início...

O início de algo pode ser um encontro, um beijo, a oficialização...
O início pode ser o dar-se conta de um sentimento, de um fato, de uma falta..
O início pode ser notado rapidamente ou tardiamente. Não há um momento exato.
O início pode vir a partir do final...
É difícil notar.. o início não é tão óbvio..
... Mas é no início que se sente algo diferente...
...Algo que pode vir com um desencontro, um adeus, um término, uma retomada.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

E se eu decidisse não ser mais eu?

Decidir não ser mais a pessoa que se supõe ser parece uma ideia estranha afinal, habitualmente exigimos dos outros que eles sejam exatamente quem são sob pena de serem julgados falsos. No entanto, não parecerá uma ideia tão estranha, se pensarmos que nós também exigimos dos outros que eles sejam do jeito que a gente quer, que eles mudem, se adaptem à nós (sociedade). Esta não seria uma forma de deixar de ser quem somos? Talvez não se também considerarmos que a noção de eu perpassa pelo olhar de um (ou vários) outros. Após esta consideração, também é pertinente se questionar até que ponto o que chamamos de eu é algo que cabe apenas a individualidade. Se não cabe apenas à pessoa, como poderia alguém ser dono da decisão de não ser mais o tal "eu"? Mas...
...Se apesar de tudo isso, eu pudesse decidir não ser mais eu, eu conseguiria ser uma outra pessoa ou eu me perderia na infinidade de possibilidades de ser? E...
...Seria possível tomar tal decisão ainda sustentando e suportando a ideia de ser?

"Ser ou não ser. Eis a questão [?]"